sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – III

Ironias da História

O ousado descaramento com que agora se culpam os Estados do descalabro financeiro e se mesclam interesses num amalgamado ‘nós’ a puxar ao oportunismo nacionalista, merece ainda, a fechar estes breves comentários sobre equívocos e falsidades que se acobertam sob a capa de evidências ou verdades do senso comum, uma última nota.

Apesar de tudo parecer já ter sido dito sobre o papel contraditório que coube ao Estado assumir na actual crise – primeiro como salvador de um sistema à beira da catástrofe, depois, quase envergonhado, alvo de ataques incontidos por haver gasto ‘em aventuras desnecessárias’ (!) recursos que, afinal, não dispunha – há um aspecto que, a meu ver, não tem sido devidamente destacado. Refiro-me ao facto surpreendente – e algo irónico – de o capitalismo ter sido salvo da sua mais que certa derrocada, em boa medida (ainda que sem uma contabilidade rigorosa) pela ‘mão (quase) invisível’ de um país que, a despeito de todas as incoerências, continua a proclamar-se ‘comunista’!

Com efeito, se ‘esta’ China não existisse ou não tivesse actuado, antes e depois da eclosão da crise, comercial e financeiramente, comprando os produtos e as dívidas dos países capitalistas desenvolvidos, nomeadamente dos EUA, do Japão e da Alemanha, a sucessão de acontecimentos que culminou no Verão de 2008 naquilo que ficou conhecido pela ‘crise do sub-prime’ teria muito previsivelmente precipitado a derrocada do capitalismo, ter-se-ia assistido primeiro ao ‘salve-se quem puder’ – cada país empenhado em defender os seus interesses próprios – e, por fim, ao caos completo.

Ora, o que de objectivo se pode apurar é que tal só foi possível concretizar não pela discutível natureza do seu regime (dito comunista), mas por dispor de um Estado centralizado e forte (um trunfo que se revelou essencial – à parte juízos políticos sobre o seu carácter totalitário! – para gerir e suster os efeitos da crise), capaz, pela dimensão e peso relativo do país na cena internacional, de influenciar as trocas comerciais e alavancar recursos bastantes para ocorrer aos principais focos de perturbação mundiais, tanto de natureza económica como financeira.

Entretanto, a ‘saúde económica’ que se diz bafejar a Alemanha – exibindo enormes vantagens competitivas, assentes na diferenciação tecnológica e organizativa, que lhe permitem ditar no seio da UE, em seu benefício exclusivo, as regras e os tempos de resposta à crise – ameaça esboroar-se, em breve, perante o avanço alucinante que, nesse domínio, a China (e não só) tem vindo a imprimir em todos os sectores económicos. Depois de, na última década, ter arrasado o têxtil e dominado a electrónica, está já a avançar para o assalto final sobre o automóvel, a aeronáutica,...

As transferências de tecnologia – por deslocalização de empresas ou por contrapartida negocial aos apoios concedidos – são mais uma consequência na lógica desta globalização comandada pelo capital financeiro e onde, paradoxalmente (ou talvez não), a China ‘comunista’ adquiriu um poder incontestado. Mercedes e BM’s (ou equiparáveis) importados da China a preços das ‘lojas chinesas’? A Alemanha que se cuide, pois. Breve, breve, irá chegar a sua hora,... quero eu dizer, a dos seus trabalhadores!

Mas se a Alemanha consegue apresentar, por enquanto, uma aparente unidade de interesses entre capital e trabalho, mercê do seu histórico avanço tecnológico, entre nós o aprofundamento da crise tem servido – estranha ironia – para finalmente se exporem, em perspectiva e dimensão mais próximas da realidade, as gritantes disparidades que atravessam a estrutura social portuguesa, tornando cada dia mais ridículo o discurso de um pretenso destino comum ou colectivo – como se não existissem classes e estas não traduzissem realidades sociais bem distintas. Pois que dizer então da ultrajante insistência com que políticos, empresários e comentadores (os mesmos do costume) pretendem amalgamar o jogo de interesses contraditórios numa estranha toada de pendor nacionalista, sempre que se preparam para impor ao país medidas de maior austeridade, que no final apenas sobrecarregam os mais desfavorecidos?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

(Des)Esperança ...


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma questão de ilusionismo (?) ...


“ … 61 por cento dos 2,2 mil milhões de euros destinados a combater a crise foram parar ao sector bancário”
É – tal como disse uma vez o “outro” – só uma questão de fazer (as) contas …
Dito isto : continuemos, então, com as Boas Festas !!!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – II

A maior das imposturas!

A segunda falsa evidência gira em torno do decantado papel da produtividade, já por mais de uma vez aqui abordado – mas nunca por demais evidenciado. Porque da comparação estatística com os valores internacionais equiparáveis, os obtidos internamente saem normalmente a perder, logo se pretende extrair como única conclusão que ‘os trabalhadores portugueses ganham acima do que produzem’, pelo que a solução inevitável (!) para garantir a indispensável competitividade externa passa pela ‘desvalorização/redução dos custos (!!!) laborais, das remunerações’.

À parte o ‘pormenor’, bem elucidativo e ainda há pouco tempo evidenciado por Bruto da Costa, de os rendimentos do trabalho serem considerados um ‘custo’ para a empresa – quando os ganhos do capital se traduzem por ‘benefícios’ – o que mais importa aqui realçar agora é a fraude que se acoberta por detrás desta aparente evidência do senso comum: a escassa (ou menor) produtividade resolve-se sobretudo cortando nos referidos ‘custos’ do trabalho, ou seja, reduzindo os salários (sob formas diversas).

Ora, já por aqui o expressei em diversas vezes, as razões da baixa produtividade nacional não radicam num menor esforço do trabalho, mas antes nos obsoletos processos de gestão e organização empregues na esmagadora maioria das empresas portuguesas. Ainda não há muito tempo referi que ‘a causa da baixa produtividade não está em trabalhar mais, mas em trabalhar melhor, não está em despender mais esforço, mas em reproduzir esse esforço de uma forma mais organizada. O problema é, mesmo, ORGANIZAÇÃO’. O que permite afirmar não serem os trabalhadores em geral os principais responsáveis por esse atavismo nacional que nos penaliza na comparação internacional, pois ‘se a ‘culpa’ é da organização – ou da falta dela – então os ‘culpados’ são, em primeira instância, os... gestores e organizadores, todos os que têm de a formular, planear e aplicar, enfim, os decisores em geral (...)’!

Porque só detectando correctamente as causas da menor produtividade evidenciada em parte significativa das actividades nacionais é possível estabelecer as medidas certas para, em cada caso, a aumentar e assim eliminar as diferenças de competitividade que hoje se verificam para os principais parceiros comerciais do País. E que alimenta o discurso dos que pretendem explicar os atrasos no seu desenvolvimento com base no estafado e falso argumento de que ‘o nível de salários dos portugueses está desfasado do da produtividade’, para justificar a redução salarial (ou tentar a sua desvalorização sob diversas formas), pondo-se eles próprios a salvo de qualquer beliscadura nas suas regalias.

Daí ter adiantado, na sequência do então referido, que ‘os principais responsáveis pela tão persistente e vilipendiada baixa produtividade são os mesmos que a invocam como argumento (dá jeito em momentos como este), para extraírem mais umas migalhas aos milhões de pedintes em que o país se vai transformando... presumidamente por falta dela. Porque de um modo geral são eles que têm governado o país, definido e imposto – dela se servindo – esta ORGANIZAÇÂO: tanto no Estado, como nas empresas, a nível da sociedade global!

Não consta que, após a crise ou por força dela, tenha ocorrido alteração significativa ou sequer algum movimento importante nas remunerações dos gestores, públicos ou privados, sobretudo nos sectores de que se reclama padecerem de baixa produtividade e até nas empresas que apresentam prejuízos de milhões. A esmagadora maioria deles continua a usufruir do mesmo nível de regalias que, em boa medida, contribuiu decisivamente para o descalabro financeiro que conduziu à crise!

E que faz de Portugal o País da UE onde são maiores as desigualdades sociais – com tendência para o seu agravamento!

(...)

sábado, 25 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

As falsas evidências do senso comum: equívocos ou imposturas? – I

Os equívocos

O actual contexto político, pródigo em incertezas, grande desorientação, muita desilusão e não menor insatisfação, é propício também e talvez por isso, à aceitação fácil das falsas evidências com que os poderes instituídos contam para o eficaz controle dos seus subordinados. Apresentadas sob a forma de raciocínios simplistas e enraizadas na opinião pública por pressão constante dos ‘fazedores de opinião’, fazem parte do esquema mental que nos pretendem incutir de não haver alternativa social às ‘inevitáveis’ soluções do mercado. Tudo é feito, pois, em nome do mercado.

São sobretudo dois os equívocos que vêm pautando o quotidiano das ideias feitas e que mais importa desmontar, até porque deles invariavelmente se extraem consequências ou assentam medidas cuja necessidade se pretende justificar (quando não mesmo impor) como evidências naturais e inevitáveis:

O primeiro pretende que tudo o que acontece de mau no país é da responsabilidade do Governo e, por extensão, do Estado. Isso significaria então que bastaria uma simples mudança do Governo para que tudo mude ou, pelo menos, melhore.

O segundo diz respeito à origem da desgraça: tudo, afinal, se resume às atávicas diferenças de produtividade com os nossos concorrentes ou parceiros. Logo, conclui-se, o que importa é desvalorizar o trabalho tanto quanto for necessário para nos podermos equiparar (ou pelo menos aproximar) aos nossos mais directos competidores.

Cada um destes pontos carece de um pequeno comentário mais.
O papel que o Estado deve desempenhar nas sociedades modernas é, por agora, tema dominante e referência obrigatória nas análises efectuadas sobre as múltiplas questões sociais, ainda que pairando as mais das vezes de forma apenas subliminar, o que demonstra a universalidade da sua pertinência. Invocado seja para se evidenciar a sua necessidade imperiosa ou a sua dimensão desmesurada, para acentuar a imprescindível função regulatória de que se não prescinde (embora em graus diversos) ou a sua asfixiante omnipresença na vida das pessoas. Isso deve-se, antes de mais, ao crescente peso que tem vindo a ganhar sobretudo desde que lhe foram atribuídas as funções sociais, antes reservadas ao estrito âmbito da assistência meramente caritativa (logo, facultativa).

Não admira, pois, que quando se trata de encontrar explicação para o descalabro actual os olhos se virem, invariavelmente, para os responsáveis governamentais tidos, em última análise, como os caucionadores, quando não mesmo os fautores, de todas as desgraças que acontecem. Não deixa de haver algum fundamento nesta simplificação, pois que se firma na perspectiva, afinal bem razoável, de que as escolhas políticas deveriam ter capacidade para impor os seus pontos de vista sobre as restantes componentes da vida, na ilusão de que aos cidadãos-eleitores, através dos seus eleitos, caberia orientar e controlar politicamente os diferentes aspectos sociais, incluindo a economia. Mas não é assim que acontece, como se sabe.

O que a realidade comprova é que a rotatividade dos partidos do centro – PS/PSD (com ou sem o pendura do costume, o CDS) – a que esta democracia nos parece haver condenado, tem-se resumido a gerir, de forma mais ou menos (in)competente e com menos ou mais corrupção, as funções de um Estado cativo de um sistema económico que tudo comanda e que efectivamente governa. Com efeito são os ‘mercados’, mais que quaisquer políticas ou tendências ideológicas, que ditam as soluções a adoptar e as medidas a tomar. Que definem as regras e traçam os limites, que concedem as benesses de uma expansão económica ou impõem os danos das restrições financeiras. Em suma, que elegem os beneficiados e designam os punidos.

Afinal a única verdadeira vantagem desta desengonçada alcatruz reside apenas na periódica substituição da plêiade de serventuários e demais agentes do Estado – vantagem que, nas actuais circunstâncias, está longe de poder ser menosprezada.

(...)

Sem comentários ...


Ora, limite-se a ouvir ... e desfrute, clikando AQUI

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A verdade ganhará sempre


"Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor de The News de Adelaide, escreveu: “na corrida entre segredo e verdade, parece inevitável que a verdade ganhe sempre”.
A sua observação talvez reflectisse a revelação do seu pai, Keith Murdoch, de que as tropas australianas estavam a ser sacrificadas desnecessariamente nas costas de Gallipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não se deixou silenciar e os seus esforços levaram ao fim da campanha desastrosa de Gallipoli."

Por Julian Assange, publicado no The Australian
(via: esquerda.net )

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O bluff da produtividade (?) ...


"Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício.
Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica.
O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais.
Para quê?
Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade"
Agustina Bessa-Luís, in "Dicionário Imperfeito"

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Acontece(u) ...


Traido pelo coração, Carlos Pinto Coelho faleceu ...
Morreu, o Carlos, vivenciando o (seu) ofício, no (de)correr da (sua) profissão de Jornalista.
Carlos Pinto Coelho, foi um Senhor Jornalista, um Homem de (e da) palavra ...
Um Governo do PSD - de triste, muito triste memória - silenciou-lhe a "voz", acabando com o "Acontece", o melhor - de longe - de todos os Programas que, até ver, e do ponto de vista de/da Cultura, se realizaram em Portugal.
Carlos Pinto Coelho, com um estilo muito, muito peculiar, sabia conversar, inquirir e, acima de tudo, rasgar horizontes ...
Acontece(u) que o coração do Carlos, velhaco, e sem qualquer aviso prévio, acabou por lhe tramar ...
Carlos, até sempre !!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ser ou não ser


Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Manuel Alegre

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Pela LIBERDADE, Sempre !!!


QUANDO UMA PORTA SE FECHA... DEZENAS DE JANELAS SE ABREM !!!
Assim, e por enquanto, a Liberdade pode(rá) passar por aqui :
http://savewikileaks.net/another-wikileaks-address/

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

SOS Racismo : 20 anos ...

Hoje, na Cinemateca, às 21h 30m:
. SOS Racismo, 20 Anos de Luta Contra o Racismo .
Documentário de : Bruno Cabral
Seguido de nove curtas-metragens realizadas por Manuel Mozos, Miguel Clara Vasconcelos, Sérgio Brás de Almeida, Raquel Freire, Susana Palmerston, Hugo G., Uncle C., Isabel Pato, João Dias, Tiago Pereira, Mito Elias.
Um resumo de vinte anos de actividade do SOS Racismo, contando a história da associação e relembrando alguns dos seus momentos decisivos.
A sessão prossegue com sete pequenos filmes expressamente realizados para evocar o 20º aniversário do SOS Racismo.

Depois, nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro, no "Clube Ferroviário", muita Festa com musica, teatro, poesia etc,etc ...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O reservatório inesgotável ( até ver ...) !!!


Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV:
• Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível.
Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

• Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
• Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
• Mazarino: Criam-se outros.
• Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
• Mazarino: Sim, é impossível.
• Colbert: E então os ricos?
• Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
• Colbert: Então como havemos de fazer?
• Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

( in Le Diable Rouge, de Antoine Rault )

domingo, 5 de dezembro de 2010

Violência das desigualdades, ‘fantasmas’ da burguesia

Um dos ensinamentos básicos da História, para quem estiver disposto a acatá-los, é que a realidade social é sempre mais complexa e dinâmica que os esquemas teóricos onde, por vezes, se tenta encerrá-la. A actual crise e a forma como ela tem sido tratada ao nível da decisão política e dos responsáveis económicos, vem proporcionando exemplos de sobra de como as melhores soluções práticas dificilmente se ajustam às fórmulas contidas nos bem elaborados compêndios universitários.

A economia clássica, como se sabe, teoriza(va) enfaticamente sobre as virtualidades criadoras dos ciclos recessivos: à destruição provocada pelas crises económicas (falências, desemprego,...), sucedia um novo ponto de equilíbrio, uma nova economia, mais dinâmica, mais produtiva, renovada. Isso até à grande crise de 29, que pôs o sistema à beira do colapso. Valeu-lhe, na emergência, um misto de realismo e de ousadia teórica, a acção política de Roosevelt e o pensamento de Keynes, o programa do New Deal e a ambição do Welfare State. Ao paradigma clássico do desenvolvimento natural do ciclo recessivo assente no ajustamento da oferta, Keynes contrapõe a necessidade de estímulos à procura, só possível através da intervenção externa do Estado. Soçobrou a teoria, mas salvou-se a economia e o sistema!

Durante perto de 50 anos prevaleceu o pragmatismo, mesmo quando, na aparência, isso implicava actuar contra a teoria. Até que, ignorando as cautelas impostas por aquela velha máxima, o proselitismo ultraliberal (com nomes e ramificações conhecidas, a sua origem remonta aos anos 30 – Colóquio Walter Lippman, em Paris – e fundação, em 1947, da Societé Mont-Pèlerin), que nunca havia desistido dos princípios teóricos clássicos, impõe os seus pontos de vista. A pouco e pouco foi-se consumando a ruptura do Pacto Social que emerge do pós-guerra – cuja base económica assentava nos princípios keynesianos de desenvolvimento. A inevitável desagregação social subsequente, potencia novas manifestações da violência inscrita nos genes de um sistema regulado pela competição (alimentadas, é certo, por múltiplos outros factores).

Desta acção resultou, em boa medida, a presente crise e a persistência de alguns dos principais impasses económicos e sociais. De entre todos e à cabeça, o grande dilema das sociedades actuais: onde e como ocupar de forma produtiva toda a população. No âmbito das correntes dominantes da economia, a única solução admissível, ainda que de efeitos temporários, passa por se retomarem as medidas de estímulo à procura, por via da intervenção do Estado, tal como propugna a teoria keynesiana para a saída do ciclo recessivo. Mas a resistência a esta perspectiva, por parte do actual poder neoliberal, torna cada vez maior a probabilidade de, no imediato, se aprofundar a catástrofe social e de os seus efeitos se protelarem indefinidamente.

Daí que, comece a equacionar-se e pareça já só fazer sentido uma solução de longo prazo, apenas possível com uma alteração radical da organização social, desde logo no que respeita à forma como o trabalho é encarado: de simples mercadoria em direito pessoal efectivo, tutelado pelo Estado, implicando, nomeadamente, a redução do tempo actual e a sua redistribuição, por forma a permitir-se o pleno emprego das capacidades humanas disponíveis e o acesso de todos, em condições de igualdade, às potencialidades presentes na sociedade. Qualquer outra alternativa não passará de paliativo temporário, destinada a fracassar e a, de forma recorrente, dar lugar a outra,... a mais outra,... Até ao colapso final?

Enquanto isso, não param de ser emitidos sinais inquietantes de um mundo em acelerada desagregação. O que se passa com as actuais guerras entre ‘gangs’ rivais – tenham eles a sofisticação das múltiplas máfias (russas, tríades chinesas ou cartéis da droga) ou o amadorismo ‘romântico’ dos simples ‘gangs’ de bairro – reflecte um pouco a tendência desagregadora para onde se orienta a competição fora do controle do Estado. Ou do espírito subjacente à decantada liberdade individual por trás da iniciativa e criatividade mercantis e dos negócios. O risco da violência descontrolada evoluir para uma situação de desagregação social próxima da anomia não é de todo ficcional...

Precisamente o medo de desagregação social (em resultado da aplicação das receitas liberais) - por potenciar a via revolucionária - renasce entre os mais lúcidos teóricos da burguesia. Remonta-se ao início do séc. XX, para onde somos remetidos pela comparação – exposta no último ‘Prós e Contras’ pelo liberal João Confraria – com o que se passa hoje a nível da desigualdade na distribuição do rendimento, porque ‘nalguns casos, adianta, a percentagem da riqueza que vai para o 1% mais rico da população é semelhante à de então’, ou seja, ao invés de diminuir, tem vindo a aumentar perigosamente! Por trás de uma postura teórica pretensamente asséptica, relembra que o actual nível de desigualdades é, como então, propício a ‘acontecerem coisas terríveis como a revolução russa e o que se lhe seguiu’. E avança explicando que ‘quando a desigualdade atinge níveis que as pessoas consideram insuportáveis ou indecentes, tendem a manifestar-se de forma pouco civilizada (!), embora com o apoio de aparelhos ideológicos mais ou menos estranhos (?). E é isso que temos de evitar’, conclui.

Afinal, a única preocupação por trás da prosápia condoída com que esta gente adorna os discursos sobre a desigualdade (e os seus efeitos) é mesmo e só, hoje e sempre, o ‘fantasma’ da revolução e o papão do comunismo!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os Açores e a Segunda Guerra Mundial ...


Eis um filme/documento histórico da chegada dos Ingleses à Ilha Terceira aquando da Segunda Guerra Mundial...
http://www.britishpathe.com/record.php?id=12437

( enviado dos EUA/Boston, por e-mail, pelo meu Amigo Manuel Bonifácio )

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE GERAL


Declaramos para todos os efeitos necessários e convenientes que este Blogue está em GREVE.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amanhã, dia 24 : GREVE GERAL


A Greve é um direito, garante a Constituição e estabelece o Código do Trabalho. Mas o desconhecimento da lei, a precariedade e a chantagem do desemprego trazem dúvidas e receios. Aqui estão as perguntas e as respostas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Contra a(s) Guerra(s) ...


É uma questão de cidadania e porque, afinal, a Nato só potência a(s) guerra(s) ...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Concerto anti-NATO


Esta quinta-feira, 18 Novembro, concerto às 21h30 no Largo Camões, em Lisboa, com Terrakota e Mercado Negro.
Por Portugal fora da Nato e a Nato fora de Portugal quando, agora e ademais, se sabe que Portugal é o único país que paga para ter comando da NATO

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

0 (nosso) triste "fado" ...


(clique na imagem para visualizar as legendas)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

As FALSAS EVIDÊNCIAS do M-E-R-C-A-D-O ...


Falsa evidência n.º 1:
OS MERCADOS FINANCEIROS SÃO EFICIENTES
Falsa evidência n.º 2:
OS MERCADOS FINANCEIROS FAVORECEM O CRESCIMENTO ECONÓMICO
Falsa evidência n.º 3:
OS MERCADOS SÃO BONS JUIZES DO GRAU DE SOLVÊNCIA DOS ESTADOS
Falsa evidência n.º 4:
A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS
Falsa evidência n.º 5:
É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 6:
A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS
Falsa evidência n.º 7:
É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA
Falsa evidência n.º 8:
A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU
Falsa evidência n.º 9:
O EURO É UM ESCUDO DE PROTECÇÃO CONTRA A CRISE
Falsa evidência n.º 10:
A CRISE GREGA PERMITIU FINALMENTE AVANÇAR PARA UM GOVERNO ECONÓMICO E UMA VERDADEIRA SOLIDARIEDADE EUROPEIA
Conclusão :
DEBATER A POLÍTICA ECONÓMICA, TRAÇAR CAMINHOS PARA REFUNDAR A UNIÃO EUROPEIA
( in Manifesto dos Economistas Aterrorizados; para ler/estudar aqui)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

‘Os mercados querem drogas e prostitutas’, afirma Krugman

Finalmente, começamos a chamar os ‘bois/boys pelos nomes’, destapando-lhes a carapuça. Aqui mesmo abaixo, Borges de Sousa posta os rostos de alguns deles, mas o movimento estende-se, imparável, por toda a ‘Net’, que todos os dias acrescenta nomes e respectivas sinecuras às listas destes serventuários de um sistema que os sustenta e neles se suporta.

Mas há aqui uma pequena/grande perversidade: é que os ‘bois/boys’ estão longe de constituir um exclusivo partidário, estão longe até de constituir a sua maioria. Por um estranho atavismo, porventura resultante da nossa também atávica dependência do Estado, habituàmo-nos a desancar nos ‘partidos’, por ser mais fácil, por estarem mais expostos nos media, por serem ‘públicos’; aos privados tendemos a perdoar-lhes as extravagâncias, mesmo as de pendor criminoso – fuga aos impostos, práticas pouco éticas, ‘habilidades’ financeiras,... – vá-se lá saber porquê, pois apenas nos não vão aos bolsos directamente...

Com isso esquecemo-nos de que os agora famosíssimos ‘mercados’ são constituídos sobretudo por ‘boys’ e ‘girls’ que nada têm a ver com os partidos, bem pelo contrário, dizem-se mesmo quando não antipartidos, pelo menos pairando acima deles. Olham para estes como organizações obsoletas, enxameadas de oportunistas e arrivistas, no mínimo de uns quantos diletantes empenhados em fazer carreira à custa da papalvice alheia mediante o débito de uns trocadilhos linguísticos em discursos ocos e sem sentido prático, enfim, de obstáculos ao verdadeiro progresso – e não deixam de ter razão em muitas situações.

Progresso que eles, ‘boys’ e ‘girls’ (aqui em sentido lato, não o estritamente partidário, claro) personificam quando se entregam de forma empenhada e criativa às múltiplas engenharias financeiras, quando elaboram ‘científicos’ relatórios económicos onde expõem, sem contradita de espécie alguma, estatísticas e probabilidades sobre o futuro das instituições e dos países; onde peroram sobre ‘evidências’ (!) e ‘inevitabilidades’ (?); onde concluem (sem nunca o afirmarem explicitamente) que todos quantos não pensem desta maneira ou são ignorantes ou estúpidos, mal intencionados e – no fim da lista mas não em último – até perigosos terroristas!

P. Krugman, o Nobel da economia, em recente artigo já destacado pelos ‘Ladrões de Bicicletas’ (e até pela RTPn), expõe-lhes os tiques para os caracterizar de forma exemplar. À pergunta que, por estes dias, mais vezes é feita – afinal, ‘o que é que querem os mercados?’ – transcreve a resposta de um outro 'blog' (The Irish Economy) onde, sem papas na língua, se afirma: ‘os mercados querem dinheiro para droga e prostitutas’. Eis aqui parte da sua explicação:

Most people don’t realize that “the markets” are in reality 22-27 year old business school graduates, furiously concocting chaotic trading strategies on excel sheets and reporting to bosses perhaps 5 years senior to them. In addition, they generally possess the mentality and probably intelligence of junior cycle secondary school students. Without knowledge of these basic facts, nothing about the markets makes any sense—and with knowledge, everything does.” (…)

“Bread and circuses for the masses; cocaine and prostitutes for the markets. This can be looked on a unethical obviously, but since the entire system is unethical, unprincipled and chaotic anyway, why not just exploit that fact to do some good for the nation instead of bankrupting it in an effort to buy new BMWs for unmarried 25 year olds.

Isto é o que dita ‘a consciência de um liberal’, título da coluna que Krugman mantém no ‘The New York Times’ (de onde se extraiu este texto), que já foi também título de livro. É esta ‘consciência liberal’, à americana, que parece faltar a Merkel, Sarkhozy, Cameron ou Barroso, aos líderes de uma Europa que era suposto ser Unida. E que, por herança da ‘velhinha’ Revolução Francesa, surgia ao mundo como o exemplo mais avançado de solidariedade, mas que definha às mãos de títeres medianos, envoltos num estranho ritual autofágico a que os conduziu a obsessão por modelos teóricos que, ao longo da presente crise, provaram todo o seu potencial destrutivo.

Triste, pois, verificar o retrocesso do ideal europeu, que se joga hoje sobretudo entre a defesa do Estado Social e uma qualquer caricatura berlusconiana de ‘boys’ e ‘girls’!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Liturgia orçamental: Notas à margem do OE11 – III

O Sumo Sacerdote: a tutelar intervenção do FMI

Logo que foram conhecidas as principais orientações do OE/11, percebeu-se, pelos comentários dos analistas do costume, que esta era apenas a 1ª etapa no processo de desmantelamento do Estado Social e que, independentemente das suas sequelas e vicissitudes, iria culminar com a chegada do FMI. Toda a dramatização exposta nos ‘media’, pelos mais diversos e sempre abalizados especialistas, quanto ao ‘abismo’ em que o país está prestes a cair, tem apenas como objectivo fazer ver a inevitabilidade da sua intervenção no curso da política portuguesa, caucionando e até reforçando o aperto financeiro traduzido nas medidas de austeridade impostas à conta do déficit e da dívida pública, desresponsabilizando, deste modo, os políticos internos.

O certo é que ele já cá está, a sua presença tutelar impõe-se mesmo sem necessidade da sua deslocação física. Desempenha o papel do papão que obriga a criancinha a comer a sopa toda. A ameaça não pode ser mais explícita: o nível de restrições exigido pelo descalabro das contas públicas e do endividamento do Estado já só é possível de impor mediante uma intervenção externa, pelo que, nas circunstâncias, concluem, a chamada do FMI é o mal menor... Mas, acrescentam logo, uma eventual intervenção do FMI não se afastará muito das medidas de austeridade propostas no OE, pelo que, reconhecem, o seu papel ‘resumir-se-á’ a tutelar a sua execução, assumindo o odioso dos seus efeitos mais nefastos, aliviando desse fardo os executantes domésticos, PS, PSD e CDS.

O FMI é, assim, o ausente mais presente nas negociações e demais prelecções (envolvendo partidos, especialistas, comentadores,...) em torno deste OE. O tal que corta a despesa pública, mormente a que sustenta a dimensão social do Estado, em nome de uma redução do déficit ditada pelos famigerados mercados (e imposta pelos cânones liberais): não é por acaso que o PSD fez tanta questão na redução da Taxa Social Única, principal fonte de financiamento da Segurança Social, como moeda de troca ao aumento do IVA proposto pelo PS. O propósito já várias vezes explicitado (foi-se o pudor e a vergonha, nem se preocupam em o esconder), destas ignominiosas investidas é mesmo a destruição imediata do que resta do Estado Social, principal empecilho à pureza do modelo liberal e à selecção dos mais capazes!

Exemplo acabado é o do seu novíssimo bonzo, o ‘nosso’ António Borges (e dos ‘hedge funds’, da Goldman Sachs,...), paladino da criativa desregulação financeira e, mesmo depois da crise que esta provocou, avesso a qualquer reforço de regulamentação. Já depois da sua entronização como acólito do Guardião do Templo/FMI, não disfarça um esgar de despeito ao insistir em vulgaridades (ou provocações?) do género: ‘Os portugueses vivem acima das suas possibilidades!’. E já imbuído do seu novo estatuto, com acinte, proclama: ‘Portugal está de joelhos perante o BCE’. Só não acrescenta por que ínvia razão este não pode actuar directamente junto dos governos, preferindo alimentar a especulação dos intermediários bancários num negócio que lhes é altamente proveitoso, tanto quanto de ruinoso para as populações que lhe suportam os efeitos!

A incoerência do actual discurso do PSD – balanceando entre tiradas de arrojado sentido social (por razões de táctica eleitoral) e afirmações de princípio liberais (conforme explicitado na sua recente proposta de revisão constitucional) – não consegue esconder o propósito de, tão rápido quanto o permitirem as circunstâncias (eleitorais, sociais,...), reduzir à expressão mais simples a dimensão do Estado Social, considerado o principal foco da despesa incontrolável do Estado e por isso de manutenção inviável.

Em lugar de se dar início a um movimento no sentido da construção de um modelo alternativo de desenvolvimento capaz de dar resposta aos inúmeros impasses, sobretudo os de cariz económico e laboral, com que as sociedades actuais se debatem, os políticos do ‘centrão’ obstinam-se na gestão do sistema sem o pôr em causa, para isso recorrendo a medidas tapa-buracos e de puro remedeio. Os cortes financeiros anunciados no OE11 estão longe de resolver o problema ou sequer o minimizar, pelo que, afirma-se, não vai bastar a austeridade anunciada, novos cortes irão ser inevitáveis! Onde, pois?

Inevitavelmente no frágil Estado Social! E se no processo da sua destruição, a Sócrates coube abrir o caminho, a Coelho, já se percebeu, não bastará seguir-lhe os passos. Até porque a ele se juntam, em acesa competição, o ‘nosso’ homem no FMI, Cavaco, Portas & C.a,... que tudo farão, de modos diferentes, por lhe fixar o rumo e marcar o ritmo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O nosso triste fa(r)do ...


Se, por acaso, quiser ver, com "olhos de ver", os figurantes que alimentam este (nosso) triste fa(r)do, basta(rá) fazer um clique na imagem.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Liturgia orçamental: Notas à margem do OE11 – II

Um Deus Supremo: o paradigma do crescimento contínuo

Um dos aspectos que maior consenso social reúne é o da necessidade de um crescimento económico sustentado, requisito básico para a melhoria das condições de vida (as metas e a forma para o alcançar é que estabelecem as diferenças). Sem esta aparente unanimidade, porventura a base de todo o progresso, colocar-se-ia em risco a manutenção do nosso actual nível de conforto, em especial o conjunto de comodidades que foram sendo geradas e desenvolvidas ao longo da história breve do capitalismo.

Importa, contudo, desfazer desde logo um equívoco. Crescimento económico sustentado não é, como se sabe, a mesma coisa que desenvolvimento sustentado – pode haver crescimento sem que isso se traduza em desenvolvimento, tudo depende da forma como é obtido e utilizado esse crescimento – se bem que ambos sejam usados frequentemente de forma indistinta. Tal confusão apenas aproveita à religião do ‘império do mercado’, pois todo o poder deste é baseado no paradigma do crescimento contínuo, deus supremo a que tudo se subordina, bem patente na ideologia do produtivismo, que impõe produzir sem questionar. Não se ignora que, num mundo em que cerca de 80% da população sofre ainda, por vezes de forma brutal, carências materiais enormes, torna-se difícil explicar que desenvolvimento pode não implicar crescimento (ou até mesmo exigir decrescimento), mas esse é o papel que deve caber à política, enquanto forma superior de organização e direcção social (e a que é suposto subordinar-se a economia), tanto para as opções económicas a tomar (da produção à repartição), como na própria pedagogia a fazer sobre as escolhas adoptadas.

Mesmo a presente (permanente?) discussão em torno do déficit público e da necessidade em o reduzir para os cabalísticos ‘3% europeus’(!) é feita, invariavelmente, tendo como pano de fundo o primado do crescimento económico, referência obrigatória do actual modelo de desenvolvimento (ocidental primeiro, global por fim) e ao qual são atribuídos, definitivamente, insondáveis poderes mágicos servidos por uma alquimia de saberes esotéricos, mas de que depende a vida das pessoas. Da sobrevivência ao conforto, da ocupação ao lazer, até da guerra e da paz, tudo reporta ao nível de crescimento alcançado num determinado momento, tudo remete para esse incontestado modelo baseado na expansão económica contínua – cada vez mais contrariada por esse facto comezinho e óbvio de que os recursos em que assenta não são inesgotáveis...

O pensamento político, que era suposto reflectir sobre múltiplas alternativas, vive aprisionado no dilema do crescimento que apenas conhece as opções por ele mesmo ditadas: crescer, estagnar, reduzir. A ele se subordinam, como é óbvio, todas as decisões e acção políticas, tudo, afinal, gira em torno deste tema essencial, analisado não do ponto de vista da melhoria das condições de vida das pessoas, mas da criação de riqueza, com apropriação pré-definida pelo próprio sistema (a discussão em torno da sua repartição assume sempre papel negligenciável, mesmo sabendo-se não ser este um tema inócuo até do ponto de vista estrito da produção para o mercado).

Aliás, o mínimo reparo ou a mais leve crítica a este estado de coisas, ou qualquer tentativa de se apresentar uma alternativa real, é tido como devaneio irrealista e os seus autores apodados, conforme os casos e os contextos, ora de perigosos subversivos, ora de lunáticos idealistas, sempre como marginais ao essencial dos termos pré-fixados para o debate. As alternativas apresentadas só têm hipótese de serem aceites se respeitarem os limites impostos pelo sistema, o que implica ser apenas possível discutir entre variações de mais ou menos crescimento, entre ritmos mais rápidos ou mais lentos, nunca pôr em causa os mecanismos sociais que o (re)produzem.

Quanto tempo levará ainda a perceber ser impossível manter os ritmos de crescimento impostos pelo dito mercado eficiente? O que é que terá de acontecer para que as pessoas sintam – tal como começam agora a sentir os efeitos perversos do mercado – a necessidade de mudar o seu paradigma de vida, ajustando-o à realidade de um mundo de recursos limitados?

(...)

sábado, 30 de outubro de 2010

Liturgia orçamental: Notas à margem do OE11 – I

A verdadeira religião: o império do mercado

Finalmente, o tema do mercado entrou no léxico corrente, pela via do costume, a mais dolorosa. Por regra, as pessoas só começam a encarar os problemas quando os sentem. A simples invocação dos ‘mercados’ sugere mais restrições, mais austeridade, retrocesso de direitos... Por enquanto, ao mesmo tempo que clamam contra os seus efeitos malévolos, tendem a aceitar, resignadamente, a tese da sua inevitabilidade: ‘os mercados é que mandam, não nos resta senão acatar’, ouve-se repetidamente. Tal como os efeitos da ira divina – ou, no correlativo, o da sua infinita bondade – também aqui os malefícios do mercado são considerados o preço a pagar para que se obtenham os muitos benefícios que lhe atribuem e se espera dele extrair.

Já tudo parece ter sido dito sobre a aberração que constitui o facto de os Estados, depois de serem ‘obrigados’ a salvar o sistema de um colapso anunciado, se verem agora ‘obrigados’ a suportar, para além do valor das dívidas então contraídas, ainda o valor de uma especulação financiada pelo BCE que era suposto dever actuar em benefício do equilíbrio financeiro da União (?). Invoca-se o argumento de que os Estados não podem alegar qualquer objecção, pois as regras de financiamento eram conhecidas de há muito, mas o certo é que é difícil aceitar que tais regras não se tenham alterado na sequência da operação de salvamento dos ditos sacrossantos mercados – porque eficientes! – , pelos ‘tenebrosos’ poderes públicos – ‘gordurosos’ e ineficientes!

Ao contrário do resto do mundo, dos EUA à China, onde os Estados continuam a suportar em boa medida enormes déficits públicos para, deste modo, minimizarem as consequências da crise financeira em termos económicos e, consequentemente, sociais, os líderes da Europa decidiram enveredar pela ortodoxia do mercado, aplicando as regras mais estritas dos cânones e liturgia propostos pelos seus mais fervorosos prosélitos. Não obstante saberem que a causa próxima na origem da crise foi a ânsia infrene de ‘desregulação’ económica – colocando todas as decisões sociais (e, por arrasto, as políticas) nas mãos dos indefectíveis ‘mercados’ – mantêm a crença na capacidade ilimitada destes para organizar as sociedades da forma mais eficiente, esquecendo (pelo menos...) e de forma deliberada, a História, a experiência e toda a investigação académica produzida sobre as imperfeições dos ditos mercados! Afirmam que o processo de liberalização e desregulamentação da economia não se encontrava concluído (!!!) quando a engenhosa criatividade tecida em torno do ‘sub-prime’ – resultado directo dessa desregulamentação – precipitou o mundo para a pior crise do século, com o sistema à beira do colapso,... pelo que advogam a necessidade de tal tarefa ser retomada e o processo concluído!

É esta a essência da liturgia criada pela nova religião imposta pelos ‘estranhos’ mecanismos sociais que nos (des)governam, na obediência, cega e reverencial, ao misterioso mas Todo-Poderoso ‘império do mercado’. Aliás, os ‘mercados’ (dito no plural, não sei se soa mais democrático, se actua como ameaça, em jeito de invocação dos ‘demónios’...) assumem o papel de uma verdadeira religião, a única realmente eficaz, com capacidade para vergar os transviados e fazer ajoelhar os menos devotos. A fé nos mercados é tanta que eles acreditam que o Espírito Santo mercantil – corporizado na ideologia do consumismo – acabará por ‘iluminar’ os mais resistentes, amalgamando gostos e condutas, formatando consciências, revelando-lhes todo o esplendor desta ‘sociedade de consumo’ – mas sonegando-lhes, na medida do possível, o lado negro do desperdício, do esgotamento de recursos, das profundas assimetrias sociais...!

É por isso que, neste contexto, qualquer proposta de alternativa ao ‘império do mercado’ soa a verdadeira heresia. Enquanto nos mantivermos no domínio do sagrado e do dogma, vai ser difícil dar a volta à situação! Para mal de todos, incluindo muitos dos seus mais fervorosos crentes!

Quando – e como – conseguiremos libertar-nos de todos os nossos ‘demónios’?

(...)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Rossio : Outono de 2010 ...

Chove e, em Lisboa, é o caos ...
Mas, terá que ser mesmo e assim este nosso (triste) "fado" ?..

(Rossio, hoje ; foto enviada pelo A.Seixas)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O único cartaz de Cavaco : quatro mil milhões ...


Cavaco, com pompa e circunstância, anunciou que não "espelhará" pelo País quaisquer cartazes com a sua figura.
A não ser este que custou-nos - a Tod@s e cada Um(a) - a módica quantia de quatro mil milhões de euros ...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Desavindos ?..


Mas, afinal, o que é que - do ponto de vista de/da política - separa(rá) estes rapazes ???
Em meu entender, lá no "fundo", bem no fundo, são - ambos e cada qual à sua (boa) maneira - uns m-e-r-d-o-s-o-s !!!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cavaco candidata-se; oh, que novidade …


Cavaco que já anda, e de há muito, em intensa campanha eleitoral anuncia(rá), logo e pelas 8 da noite, há hora do(s) Telejornal/ais, a sua candidatura a Belém.
Pois, que novidade ...
Só espero, mesmo, e para dar coerência à “coisa”, que no palco da cerimónia se faça acompanhar de ilustres compagnons de route;
- com e/ou sem pulseira electrónica, o Dr. Oliveira e Costa;
- e, claro, vindo de algures, o Dr. Dias Loureiro...
Assim, sim, com tais e ilustres companheiros a foto de/da família Cavaquista ficaria completa.
E claro : com coerência ...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"Os Donos de Portugal"


“Os Donos de Portugal” é um livro obrigatório.
Fazia falta, muita falta por forma a que – tod@s e cada um(a) – ficássemos mais apetrechados para perceber mais e muito melhor os cem anos de/do poder económico (1910-2010) em Portugal.

Tal como se pode(rá) ler, logo e na introdução, “ este livro foi escrito para compreender. E para compreender o essencial : como se formou o poder económico dos donos de Portugal ?
Ou dito por outras palavras : quem domina e como veio a dominar a economia, quem beneficia do trabalho de um país inteiro ?
Colocar a pergunta e responder-lhe com os factos é o trabalho que este livro se propõe “

Diz-se, e com razão, que a preguiça – isso mesmo : a preguiça – é um dos grandes “entorses” da democracia; é que pensar, e sobretudo, pensar pela nossa própria cabeça dá cá uma “trabalheira” …
Com este livro, o Jorge Costa, a Cecília, o Luis Fazenda, o Xico e o Fernando fazem o favor de nos explicar – de forma muito clara e sustentada - como os donos de Portugal se instalam sobre o privilégio e o favorecimento.
Ora, e se me permitem, um livro de leitura e para estudo.
Obrigatório !!!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E, porque não ?..


Então, esta proposta muito concreta do Bloco de Esquerda deve(rá) ser equacionada no plano da irresponsabilidade ?
Ou, pelo contrário, deveria ser levada a sério ?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma questão de habilidade(s); será ?..


A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele próprio e aos seus aliados.
Na política como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres será expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revoluções) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paixão interesseira.
Além disso, como os políticos estão divididos em grupos rivais, visam a dividir a nação, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem à custa do «ruído e da fúria, que nada significam».
Não podem prestar atenção a nada que seja difícil de explicar, nem a nada que não acarrete divisão (seja entre nações ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos políticos como classe
.”
Bertrand Russell, in “Ensaios Cépticos: A Necessidade do Cepticismo Político”

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Hoje : Dia Mundial do Ovo ...



Afinal, e hoje que (de)corre o Dia Mundial do Ovo, o que nasceu primeiro : a galinha e/ou o ovo ???

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

E esta, hem ???


Às vezes, as correntes que nos impedem de sermos livres são mais mentais do que físicas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nunca como agora... II

O concerto de uma globalização sem conserto

Nunca como agora se pôs tão em dúvida a capacidade dos Estados solverem as suas dívidas, mas também nunca como agora os déficits orçamentais destes foram tão elevados. O certo é que o actual descontrole orçamental advém do facto de os Estados, à conta da retoma económica, terem canalizado enormes ‘apoios’ financeiros para a economia especulativa (grande parte do dinheiro disponibilizado para enfrentar a crise foi parar aos bolsos de especuladores e agiotas sob pretexto de se estar a salvar o sistema bancário – e por arrasto todo o sistema capitalista) e não para a economia real que deles carecia.

A discussão em torno do próximo OE, porventura a peça-chave da lamentável farsa montada para infernizar a vida da maioria dos portugueses, traduz bem a bovinidade que caracteriza a falange dos comentaristas que sobre ele se tem pronunciado. Tanto a versão franciscana do Camilo Lourenço na pública RTP, como a troglodita do Medina Carreira na privada SIC, dão por inevitável (?) o recurso à superior intervenção do FMI, como avalista externo das medidas que os políticos caseiros não tinham coragem de assumir, com receio da mais que certa resistência popular – mas imprevista nos efeitos sociais e reacções eleitorais. Agora, consumado o seu há muito conhecido epílogo com o anúncio das principais medidas de austeridade, os ditos economistas esgadanham-se em ver qual deles se esganiça mais a exigir ainda maior severidade!

Nunca como agora este espectáculo rasca, desta feita na versão da farsa, terá sido levado tão longe: (1) depois dos rombos financeiros provocados por actuações ‘fraudulentas’ – mas permitidas (até abençoadas) pela orgânica do sistema instituído de desregulamentação da economia (cujo paradigma ideológico se expressa no funcionamento criativo dos ‘off-shores’); (2) depois desse sistema ter sido salvo do seu eminente colapso pelos recursos públicos – o desvalorizado dinheiro dos contribuintes; (3) depois de tal operação de salvamento ter endividado a generalidade dos Estados ocidentais para níveis nunca antes atingidos, alguns próximos da bancarrota – por efeito da canalização directa de recursos para ocorrer às situações de maior risco (banca, crise social,...), ou em resultado do enfraquecimento da actividade económica; (4) pois agora, o mesmo sistema prestes a colapsar por essa bizarra mistura de ‘fraudes’ legalizadas com ‘gente’ de má fama (que dizer de instituições que ninguém se atreve, hoje, a defender em público – os ditos ‘off-shores’ – ainda que ninguém se atreva a acabar com elas?), com descarado cinismo e ignóbil falta de vergonha:

· recusa-se a impedir que a especulação lidere o processo de financiamento das dívidas soberanas (com a consequente drenagem dos recursos públicos), o que, nas condições actuais de funcionamento globalizado, implicaria a disponibilização de fundos por parte de entidade pública supranacional, com capacidade efectiva para se substituir aos agentes especuladores a nível mundial (não o ineficaz Fundo Europeu de Estabilização, preso da orientação ideológica neoliberal dominante).

· em contrapartida exige, como forma de obter os recursos necessários para saldar as dívidas contraídas, que os Estados cortem nas despesas com o bem-estar dos cidadãos (reduzindo o Estado Social, indo de novo ao bolso dos contribuintes,...) – ou seja, exige que estes salvem duas vezes o sistema de uma comprovada gestão desastrosa e fraudulenta, em benefício exclusivo de uns poucos!

O sistema não é uma entidade abstracta, difusa, um mero chavão ideológico. Acoberta-se na matraqueada litania do misterioso poder dos ‘mercados’ e revela-se no rosto dos técnicos do FMI (e das agências de rating...), nas medidas propostas no relatório da OCDE, nas orientações e advertências da burocracia da UE, todos concertados – e, nos últimos tempos, bem afadigados – no propósito comum de apoiarem/facilitarem a aplicação interna das medidas de austeridade impostas pelo modelo de globalização financeira neoliberal (por muito que se esforcem em denegrir o rótulo, não há forma de dizer isto de outro modo).

Ao concerto das instituições do sistema na sua perpetuação, só uma resposta igualmente concertada por parte das populações pode revelar-se eficaz. Parece cada vez mais urgente a cooperação global das estruturas que as representam, a nível político, sindical, social. Em tempo de greves gerais nacionais um pouco por toda a Europa, que efeitos políticos teria, por ex., uma acção destas a nível global – ou até mesmo só europeu?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nunca como agora... I

Economistas com peito!

De há muito que temos vindo a assistir a uma pantomina em três actos, produzida e montada pelo centro do capitalismo, bem orquestrada e difundida por uma subserviente comunicação social: (1) à imposição da ‘crença’ no misterioso poder dos ‘mercados’, (2) segue-se a obrigação de fazer o que eles mandam, (3) sob pena das mais terríveis pragas e castigos. Processo de mentalização praticamente concluído, já pouca gente o contesta, tão martelados temos sido pelos especialistas e comentadores do costume. A sequela já em curso dita que, para solver as enormes dívidas provocadas pela recente salvação do sistema da sua eminente derrocada e equilibrar as contas públicas, a solução é... mais mercado! Com os inevitáveis cortes no bem estar da maioria.

Nunca como agora se assistiu a tão vergonhosa montagem de uma operação mediática destinada a impor esta monstruosidade, pelo entendimento de se tratar de uma inevitabilidade sem alternativa!!! Papel essencial, neste processo, desempenham os chamados e auto-proclamados economistas de todos os feitios, espécie de alquimistas da era moderna na arte manhosa de transformarem tostões em milhões, ideologia em ciência – com os resultados conhecidos!

Não obstante a responsabilidade objectiva que deve ser assacada aos teóricos do modelo económico liberal/desregulador pela presente crise (pese embora a desonestidade criativa de alguns se afadigue em tentar justificar o contrário), o certo é que, passado o susto inicial e recompostas as abaladas finanças privadas (em especial nos sistemas bancários) à custa dos recursos públicos, o clima político parece cada vez mais de feição à retomada e consolidação do poder que se acoberta por trás da entidade difusa e anónima que todos tratam, reverencialmente, por ‘os mercados’!!! Todos, afinal, vergados ao peso dessa misteriosa alquimia económica, misto de pretensa ciência e de poderes ocultos (tenebrosos e malévolos como convém à alimentação da crendice e subjugação dos ingénuos), bem explorada pelos bonzos e acólitos desta bizarra e tão propagandeada religião!

Estranho deixou de ser a invocação da qualidade de especialistas na matéria com que alguns, em tom de bravata, apostrofam quem se oponha aos seus pontos de vista. E se o exemplo vem mesmo do alto (cultivado pelo ‘economista’ Cavaco, o Presidente, que recorre, amiúde, ao argumento da autoridade na matéria), como estranhar a sua utilização por outros?

Num destes dias, irrompeu pelo écran, ameaçador, o Nogueira Leite – esse mesmo, o ‘medinacarreirista’ conselheiro económico do Coelho do PSD – com ares de pretender fulminar quem se atrevesse a opor-se-lhe, para tanto arrogando-se a sua qualidade de ‘economista’! A invocação do estatuto de especialista na matéria tem o mesmo efeito arrasador que a medieval aspersão da água benta sobre os endemoninhados, exorciza os demónios e apostrofa os hereges. O tom ameaçador não deixa dúvidas sobre a alternativa contida na mensagem: ou fazem o que eu digo, ou vem aí o FMI para vos meter na ordem!

A largura de ombros do personagem demonstra-se de grande monta na hora de fazer peito. Talvez se justifique mesmo um aviso: ‘Eh, pá, cuidado! O Nogueira Leite é economista! E tem peito!

Tem ainda o mérito de trazer à memória tiradas célebres de grande conteúdo programático e precavido escarmento: quem se mete com o PSD, leva!
.....???? Alto aí! Essa é do outro Coelho, o do PS! Enfim, qual a diferença? Ultimamente tão diferentes no discurso, mas sempre tão iguais na prática!
(...)

Uma questão de (des)crença ...


" Também eu padeço da mesma descrença e se não fosse antipatriótico, pelo menos neste momento, anular desde já a influência destes politiqueiros de profissão, eu apelaria para um movimento revolucionário que teria a vantagem de extremar campos e definir individualidades. "

( Abril de 1911 : Carlos da Maia em carta a João Chagas )

domingo, 3 de outubro de 2010

A (in)Justiça ...


«A vergonha não existe na natureza.
Os animais sabem a lei: a força, a força, a força.
Quem é fraco cai e faz o que o forte quer.
A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero pequeno.
Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo.
Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer.
A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual a dúvida ?
Queres o quê?

Não há animais injustos, não sejas imbecil.
Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade.
A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não.
Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da natureza.»
Gonçalo M. Tavares, in “Um Homem: Klaus Klump”

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

Autoflagelação nacional

Parece que se tornou hábito os nossos jornalistas, e a maior parte dos economistas do sistema, repetirem à saciedade que somos um país de gente mal comportada, indisciplinada, gastadora incorrigível, etc., e que, portanto, ao fim e ao cabo, até merecemos ser esmifrados, extorquidos, roubados, explorados, etc. pela finança internacional, particularmente, a alemã. Os alemães, que aliás, são gente admirável (sem ironia), o que está aqui em causa é a política de uma analfabeta económica [Merkel] (como terá dito um economista americano) e um sector específico, a finança parasitária; os alemães, dizem, andaram a pagar o nosso desregramento e agora, merecemos a punição. Claro que os alemães até lucraram, e muito, com os excessos de alguns cá do burgo. A renovação da frota das Águas de Portugal (agora suspensa pelo Governo; tiveram vergonha!) devia render bem às marcas alemãs. Para já não falar do excesso dos submarinos, por acaso, alemães! Mas com estes excessos os alemães não devem estar preocupados. A culpa é dos excessos dos desempregados e dos beneficiários do rendimento mínimo, do abono de família, etc.
Ora, mas nem sequer é verdade que os alemãs sempre financiaram os nossos "excessos". Por um lado, porque os próprios alemães violaram no passado as regras financeiras que eles próprios impuseram; por outro, porque, ainda antes do euro, por imposição pelo Bundesbank de altíssimas taxas de juros reais (nomeadamente para nós), toda a Europa financiou a reunificação da RFA com a RDA, formando a actual Alemanha.
Por outro lado, este aparente desejo patriótico de que o FMI entre por aí adentro, como se o FMI tivesse algum vez feito bem a alguém, é manifestado por alguns daqueles cá dentro (banca nacional) que beneficiam das altas taxas de juro especulativas que o Estado está a pagar pela dívida pública. Trata-se de uma autoflagelação hipócrita e interesseira/interessada. Se fossem tão patrióticos, emprestavam mais barato, a taxas menos usurárias, e decerto não chamariam pelo FMI!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma questão de carreirismo ...



Clike na imagem ... e aprecie a competência e/ou será, antes e mesmo, uma questão de puro e duro carreirismo ???

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A SIC e os comentadores económicos do costume

Há dias, de tanto ver Medina Carreira na SIC Notícias, tive o atrevimento de escrever ao Mário Crespo o seguinte:

«Caro Mário Crespo

Com o devido respeito, já aborrece a presença de Medina Carreira no seu programa. Para além de já não ser minimamente original, e sem prejuízo de reconhecer a sua seriedade e a validade e pertinência dos seus argumentos, seria mais interessante que de quando em vez ele fosse confrontado com alguém que oferecesse alternativas para além de uma ditadura de supostos iluminados que só percebem de finanças. Este país é pequeno, mas não tanto. Maior diversidade e contraditório seria interessante. Ou então organizem um debate com ele e alguém, igualmente sério, mas com perspectivas distintas.»

Como se vê, não se trata de desvalorizar as análises e os alertas de Medina Carreira. Trata-se sobretudo de discutir saídas para o problema da crise económica. Aqui, manifestamente, Medina Carreira e os outros comentadores residentes do "Plano Inclinado" deixam muito a desejar, como, muito a propósito, assinala Jorge Bateira, economista contribuidor do blogue "Ladrões de Bicicletas". na carta aberta a Mário Crespo que pode ser lida aqui.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Fogos de Verão

Todos os anos, por esta altura, acontece invariavelmente o mesmo. Os fogos de Verão espalham-se, como praga incontrolável, um pouco por todo o país, normalmente mais a norte que a sul, no interior sobre o litoral. A chegada do calor tornou-se sinónimo de ameaça de incêndios florestais, um sorvedouro de recursos devorados pelas chamas (e de outros tantos para as controlar), um impressionante rasto de cinzas, uma ansiedade revolta nas populações por eles atingidas. Apenas a clemência de um tempo menos quente, torna possível minimizar a dimensão da catástrofe que, de forma impiedosa, se abate, sazonalmente, sobre o território. Depois sucedem-se as explicações para a devastação provocada, procuram-se culpados para a aridez que resta. As ondas de calor propiciam ambiente favorável à deflagração dos incêndios ao mínimo rastilho, seja qual for a origem que os ateie, mas a frustração resultante da impotência perante a terra e os haveres queimados busca destinatários concretos. Na ausência de responsáveis bem à mão, a ira popular volta-se para ‘criminosos desconhecidos’ – a recorrente tese do ‘fogo posto’ (e alguns o são mesmo).

Mas o que se vislumbra por trás dos fogos florestais vai muito para além dos efeitos directos deles resultantes: recursos consumidos, apuramento de responsabilidades, incriminação de culpados, porventura até espúrias intenções de, no futuro, se proceder a um melhor reordenamento dos solos,... Na realidade esta tragédia alerta para um outro tipo de consequências, bem mais importantes que as vulgarmente objecto do sempre frenético tratamento mediático, seja no espectáculo (?) das imagens transmitidas, ou nas matraqueadas abordagens dos costumeiros ‘especialistas’.

E as que de imediato despontam são as que se prendem com as alterações climáticas. Permanecem na lembrança as imagens impressionantes do que ocorreu na Rússia (ou, doutro natureza, no Paquistão), mas nem uma catástrofe dessa dimensão parece bastante para acordar as pessoas e levá-las a interrogar-se sobre este problema. Tal como outras situações determinantes para o futuro (à cabeça, a organização social que nos (des)governa,...), ele só passará a fazer sentido quando ‘a casa vier abaixo’, quando as suas implicações se fizerem sentir ‘mesmo’, quando o prejuízo bater à porta de cada um! Pena que essas implicações não sejam sobretudo sentidas e sofridas por quem mais responsabilidades tem na sua eclosão – corre-se o risco de se chegar já demasiado tarde para o ‘remediar’!

Contudo, a maior ameaça de quantas os ‘fogos de Verão’ representam, reporta-se, simultaneamente causa e consequência, ao inexorável processo de desertificação do interior. Que vê no gradual abandono das terras por parte das suas gentes pasto privilegiado para as chamas. Que estas, por sua vez, pela destruição e desespero que semeiam, ajudam a empurrar dali para fora. À falta de actividades produtivas voltadas para a valorização dos recursos locais, segue-se o definhamento progressivo de todas as ocupações laborais e demais funções de apoio. Por norma o fecho da farmácia inicia um ciclo que se prolonga na fuga do médico, no encerramento do serviço de saúde local, na lenta agonia das poucas e débeis actividades comerciais, na transferência da escola (por razões pedagógicas atendíveis),...

Acusa-se o Estado de nada fazer para contrariar este processo e se alguma razão assiste a esta crítica ela reside não tanto na ausência das reclamadas ‘acções de revitalização’ (?) – sorvedouro inútil de recursos públicos, que apenas aproveitam à costumeira clique – mas, acima de tudo, numa tão absurda quanto ineficaz centralização do poder político. Porque a única acção passível de alterar este estado de coisas consiste na criação de condições para as populações locais poderem desenvolver as iniciativas melhor adaptadas a cada situação, de decidirem dos seus próprios destinos sem dependências burocráticas do poder central, num processo que exige, antes de mais, descentralização.

Eis, pois, o ponto nevrálgico: descentralizar responsabilidades torna-se a via mais eficaz e económica para, através de um adequado enquadramento político (normativo e financeiro), se conseguirem libertar as iniciativas capazes do melhor aproveitamento dos recursos locais – imensos e diversificados, e as mais das vezes ‘ao abandono’, apenas por falta de oportunidade – conduzindo à (re)invenção de actividades (algumas perdidas) que irão possibilitar a ocupação e a fixação das pessoas ao interior desertificado!

Responsabilização,... Descentralização,... Regionalização,... Reorganização social (proceder à redistribuição do tempo de trabalho, torna-se cada vez mais urgente!),... são estes os termos que condensam o programa político que melhor responde às preocupações e problemas actuais – ao desemprego, à desertificação, à praga dos ‘fogos de Verão’!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tempos inquietantes - III

A História sem futuro

A polémica em torno das propostas saídas do bornal de ideias feitas do PSD, pode ter pelo menos o mérito de estimular a discussão sobre alguns dos temas que mais contribuem para a comprovada e cada vez mais profunda insatisfação dos portugueses pela política. Sobretudo aqueles temas que mais se prendem com essas propostas, em especial os que respeitam aos direitos sociais, à segurança no trabalho e ao emprego em geral. A questão está em saber se devemos insistir nas mesmas fórmulas e receitas que conduziram o mundo até aqui – incluindo à crise actual – ou se, por outro lado, convirá antes parar, reflectir e inflectir o rumo e tentar outro sentido, outras saídas.

Que não haja ilusões: a discussão em torno das saídas para a crise irá centrar-se, no imediato, entre os que, maioritários (pelo menos ao nível dos governos europeus) advogam o aprofundamento das tendências liberalizantes, persistindo, por isso mesmo, na via da desregulamentação da economia (na utopia de um encontro com a ‘pureza’ do sistema!) e as propostas mais realistas de pendor keynesiano (já salvaram ‘esse’ sistema do colapso uma vez), apostando no esforço financeiro do sector público como forma de compensar as denominadas ‘debilidades dos privados’ (!) em tempo de crise aguda.

Utopia liberal ou realismo keynesiano, contudo, configuram uma falsa alternativa, pois ambos apostam no esgotado paradigma do crescimento contínuo. Não obstante, a disputa entre as duas principais vias baseadas no mercado arrastar-se-á seguramente ainda por algumas décadas, as necessárias até o ânimo das pessoas sucumbir à dura realidade. Entretanto manter-se-á, incólume, a aplicação das receitas por eles advogadas, em doses que variarão conforme se forem alternando no poder.

Curiosamente, é da mui liberal América que surgem as críticas mais contundentes às liberais políticas dos governos europeus na condução da economia em tempo de crise. Em recente entrevista à Visão (15Jul2010), James K. Galbraith, keynesiano convicto, veio recordar que a crise é ‘o resultado da desregulamentação e da falta de supervisão do sector financeiro’, no âmbito de ‘uma política assumida e deliberada para promover uma mais rápida expansão do crédito e maior crescimento económico de curto prazo’. E por isso lamenta que, para enfrentar a crise, os governos estejam a ‘retomar o caminho da desregulamentação e diminuição do peso do Estado’, como é exemplo ‘o ataque ao Estado-Providência em curso na Europa’. Como no caso, afinal, da proposta de revisão constitucional apresentada pelo PSD.

No fim de contas, a tónica, em ambos – liberais ou keynesianos – manter-se-á, inabalável, na discussão das vias para o crescimento – e no modo de o atingir mais rapidamente. À margem, pois, da que mais importaria promover, a das alternativas a este modelo de desenvolvimento que arrasta o mundo para um irreversível esgotamento de recursos. No sentido da construção de um modelo global alternativo, naturalmente a partir da ponderação das diferentes áreas e sectores sociais.

No domínio do trabalho, por exemplo, valerá a pena insistir nas políticas que se sabe esgotadas e incapazes de relançar o emprego, não obstante as promessas nunca cumpridas dos actores principais da alternância na gestão do mercado (de uns e outros, indistintamente) – porque centradas no também já esgotado modelo do crescimento económico?

Ou, pelo contrário, procurar perceber a razão da actual destruição de postos de trabalho, para além mesmo da crise, ela própria também parte deste problema – para se tentarem novas fórmulas, porventura até novos princípios de organização social, que permitam a inclusão de todos e não apenas de uma parte que se assume como privilegiada por ‘apenas’ ter acesso... a um trabalho cada vez mais residual?

Transformar a inquietação dos tempos em ‘tempos interessantes’ – eis, pois, o desafio!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tempos inquietantes - II

A ideologia do relativismo

O enquadramento ideológico que produz a proposta do PSD de revisão constitucional, origina e explica, igualmente, outras manifestações perturbadoras e bem sintomáticas do estado actual do debate das ideias, dominado mais pelo relativismo ético (a base do pragmatismo), que pelo individualismo liberal (não obstante o papel deste no discurso mediático). Porque é da conjugação destes dois elementos – relativismo/pragmatismo e liberalismo – que se constrói o ambiente ideológico propício ao domínio absoluto do mercado: a ausência de qualquer ideologia ou, o que dá no mesmo, o liberalismo reduzido à sua componente económica – o clássico ‘laissez-faire’.

É sabido que em tempos de crise florescem as mais diversas tendências, desvios e confusões. O desespero impede o discernimento e, nestas circunstâncias, facilmente o obscurantismo substitui o realismo, afinal é possível até encontrar a solução para a crise nas causas que a determinaram!!! Difícil é, por vezes, distinguir em que campo elas se situam ou a que grupo elas pertencem, as tradicionais referências de esquerda e direita manifestam-se insuficientes ou mesmo inadequadas ao seu correcto enquadramento. Destrinçar as falsas críticas – cujo objectivo é sobretudo o de camuflar os verdadeiros propósitos dos seus fautores – das que relevam da reflexão sobre a experiência e a vida; distinguir os consensos impostos – como é o caso do ‘mercado livre’ – dos que buscam na diversidade soluções alternativas, não se afigura tarefa simples.

A par da atenção redobrada que se exige nesta permanente demarcação entre o cálculo político (ou ideológico) e os factos concretos, impõe-se a denúncia das situações mais ofensivas da realidade (presente e histórica). Tanto nos ‘media’ tradicionais como nos diferentes locais da internet, amiúde deparamos com casos inquietantes. Onde se detectam velhos fantasmas, à mistura com novas ameaças. Das mais perigosas incursões – porque implicam a quebra de valores universais – às pouco mais que inúteis ou de efeitos estéreis – porque desfasadas da realidade. Longe de ajudarem a construir alternativas, contribuem para o adensamento da confusão das ideias, em benefício exclusivo da ‘ideologia do mercado’. Como é o caso dos dois exemplos seguintes.

De forma recorrente desponta a tese de que ‘o Holocausto nunca existiu’, com base na discussão de que os 6 milhões de judeus que se diz terem sido mortos pelos nazis são manifestamente exagerados. Da discussão do número parte-se para a negação do facto. Ora o Holocausto não se define pela quantidade de mortos que provocou, mas pela natureza do programa posto em marcha com vista ao extermínio – ao genocídio – de um povo, no caso o judeu, idêntico a outros, é certo, que ocorreram ao longo do séc. XX, ainda que sem idêntico mediatismo. O que os judeus do Estado de Israel depois fizeram com o capital de apoio ganho junto da opinião pública pelo então ocorrido, isso já é outra história que de modo algum justifica a tese do ‘negacionismo’.

O outro exemplo é mais complexo porque mais obscuro nos seus propósitos. Reporta-se a uma cada vez mais insistente crítica ao sistema bancário, tido (e bem) como o centro de decisão que conduziu à Crise, qualificado, enfim, de intermediário financeiro parasita – o que já representa um juízo limitado sobre a natureza tanto da função bancária como do próprio mercado. Se, por um lado, a Banca exerce o papel charneira nas relações entre todos os agentes que operam no mercado (determinante, pois, no processo de valorização da mercadoria), contudo é ao modelo social que organiza essas relações e ao seu paradigma de desenvolvimento que importa assacar as maiores responsabilidades: o modelo baseado no mercado e o paradigma do crescimento económico contínuo.

Apontar a actividade de intermediação bancária como a única (ou mesmo a principal) causa da Crise actual (e, note-se, sem qualquer referência à desregulação financeira...), torna-se um exercício inútil, porque desfasado da realidade, mas perigoso, ao desfocar a atenção do essencial: a urgência na mudança do paradigma de desenvolvimento que impõe o crescimento contínuo, suporte do mercado. É, de algum modo, descortinar um bode expiatório destinado à expiação para sossego dos espíritos dependentes de liturgias laicas. É, enfim, culpar o instrumento, poupando o artista que o toca. Como há 70 anos, num gesto repetido ao longo de séculos, os nazis fizeram com os judeus para justificarem, perante a sociedade alemã da época, as suas próprias insuficiências. Com os resultados que se conhecem.

No fim de contas, a quem interessa uma ideologia assente na mistificação dos factos? Quem mais aproveita com a aparente (?) distorção da realidade?
(...)